
Minha mãe plantava alface no quintal. Eu sempre tirava algumas horas do dia pra ficar olhando pra elas. Nem tanto pelas folhas verdes da alface, mas pelos pequeninos animais que dela se alimentavam. As lagartas. Sempre adorei lagartas. Classificava por tamanho, por cor, pela quantidade de espinhos, pelas manchas e até pela velocidade. Dava nome à elas. Adorava vê-las devorando a plantação que minha mãe tanto se esforçava para manter intacta e perfeita. É, eu era muito levado. Deixava comerem as folhas sem me intrometer. Mas quando eu decidia que já era o suficiente, eu as derrubava no chão. Pior era quando decidiam construir seu casulo. Eu esperava pacientemente por todo o trabalhoso processo de construção. Quando finalmente terminavam, eu as cutucava com uma pequena vareta, destruindo completamente seu casulo. Era triste para a lagarta, mas eu me sentia bem com isso. Hoje em dia, me perguntam o porque de eu estar sempre assim, meio cabisbaixo e calado, mas não respondo. Não é nada. É só tristeza mesmo. Não é nenhum problema na família, no relacionamento nem nas amizades. Estou bem, de verdade. A questão é que tem aquele momento em que, simplesmente, os sorrisos se vão. É involuntário, não tem causa nem motivo. É só tristeza mesmo. Já estou acostumado. Já sei que quando as coisas começam a dar certo demais pra mim, algo de ruim vai acontecer. Algo me será tirado, logo. Já escondo meu sorriso antes da angústia aparecer. Antecipo o sofrimento por experiência. Não sei ao certo o que vai ser, nem o quanto isso vai mexer comigo. Só sei que não será nada legal nem justo, com ninguém. Novamente questionarão meus silêncios, e eu — como sempre faço — fugirei das respostas. Prefiro ignorar as conseqüências do que as causas. Sei que não é errado ser feliz, mas a vida é injusta. A vida é um menino com uma varinha, e nós todos somos lagartas construindo um casulo. Eu sei — e vocês deveriam saber também — que quando menos se espera, algo de ruim terá que acontecer. É o ciclo natural dessa injustiça que chamamos de vida. Mesmo com algo belo e magnífico estando prestes a nascer, o menino levado nos cutuca e nos fere, fazendo a gente perceber a triste realidade em que a gente se encontra. Quem nasceu pra ser lagarta nunca será borboleta.
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